Uma Gestão Participativa pode Mudar os Rumos da Segurança do Trabalho na Empresa.

É comum encontrarmos colegas desmotivados com a resistência encontrada nas empresas que trabalham, para a implantação dos projetos que desenvolvem. Muitos resolvem mudar de área, outros começam a se dedicar à busca de um novo emprego e outros se acomodam. Pensando nisso, resolvi aproveitar este espaço para contar uma experiência vivida que talvez possa servir de incentivo àqueles que se encontram nesta condição. E por acreditar que eu estaria mais preparada para encontrar a realidade quando fosse para campo, se tivessem me ensinado na escola que mesmo nas empresas mais “perfeitas” existem dificuldades para um profissional de segurança do trabalho, é que busco compartilhar minhas experiências com os colegas para quem estiver diante desta situação saber que não é o único que precisa primeiro convencer da importância do trabalho para depois começar a trabalhar.

Há dezoito anos no auge da minha inexperiência profissional, mas cheia de idealismo, fui fazer estágio em uma excelente empresa que possuía equipe formada, na maioria, por empregados que participaram da sua fundação, que “vestiam a camisa da empresa” cujos líderes tinham mais tempo de empresa do que eu de vida. Cheguei cheia de planos e me deparei com uma realidade totalmente diferente daquelas que me eram apresentadas nos bancos das escolas de graduação e de pós em segurança do trabalho, foi então que acordei para um dia-a-dia com muita resistência, mas que me serviram de escola valiosíssima por crescer como profissional e como ser humano.

No meu primeiro contato com as frentes de serviço, ao ser apresentada ouvia esta frase a se repetir: “Ah, você é da segurança? Dizem que eu sou da CIPA e você podia me tirar de lá!” Fiquei assustada com tantas reações semelhantes e continuei a percorrer as frentes de serviço conversando com um e com outro, mas tentando entender os motivos que ocasionaram aquelas reações. Foi então que concluí que não havia cultura de segurança em nenhum setor e que deveria começar onde encontrei as primeiras manifestações contrárias, ou seja, na CIPA. Fui então buscar o livro de atas para traçar um histórico e verificar quando seria a próxima reunião e embora pensasse não ser possível ter mais surpresas depois de tudo que havia visto e ouvido, acreditem foi possível! O livro estava em branco porque não havia reuniões há meses e ao questionar o responsável como ficaria a empresa se houvesse uma fiscalização, ele disse-me com muita tranqüilidade que não teria problema porque de tempos em tempos preenchia as atas com assuntos fictícios e estaria em dia. Percebi que tinha duas saídas, ir embora ou ficar e mudar aquela realidade, escolhi a segunda opção mas não pensem que foi fácil.

No dia da reunião que estava marcado no calendário, saí de setor em setor chamando os membros para a reunião, uns se recusaram a ir e outros seus chefes não os liberaram. Resultado, não houve reunião por falta de participantes. Confesso que tinha consciência de que não seria fácil, mas estar sozinha na sala me balançou.

Procurei o gerente de RH relatei o ocorrido e pedi autorização para fazer contato com alguns fornecedores para conseguir brindes para distribuir aos membros da comissão, ele autorizou e após conseguir bonés, caixas para ferramentas, chaveiros e outros, sutilmente comentei com alguns que julgava ser “bons mensageiros”, que na próxima reunião haveria brindes para os participantes. Minha estratégia deu certo e a repeti por três meses consecutivos. No quarto mês não tínhamos mais brindes e pensei que não iriam comparecer, mas grata foi a minha surpresa quando os vi presentes. A partir de então, começaram a participar e opinar bastante, mas a lista de pendências ia só aumentando porque muitos eram os problemas apontados e nenhuma ação era concretizada.

Agora estava diante de um novo problema e a alternativa encontrada foi pedir que para todo problema fosse apresentada também uma solução. No entanto, isso tinha que ser pedido com sutileza para que não se sentissem pressionados e parassem de participar. Felizmente deu certo novamente, mudaram a postura de desabafo para participativa e as reuniões começaram a ser produtivas.

Decorrido certo tempo chegou a hora da eleição para o próximo mandato, fiquei apreensiva, como seria?

Mas o sabor da vitória foi enorme porque, aqueles que podiam, quiseram se candidatar à reeleição e outros trabalhadores quiseram, espontaneamente, fazer parte do grupo, foi um resultado fantástico para tão pouco tempo!

Paralelamente, fui trabalhando outras frentes na busca da conscientização, uma delas foi buscar o apoio dos encarregados que já me recebiam dizendo que a segurança não combinava com a produção que só atrasava o serviço e que eu não precisava me preocupar porque eles sempre trabalharam daquela forma e nunca tinha acontecido nada de grave, resolvi investigar esta afirmação e resgatar o histórico de acidentes. É lógico que era esperar demais, acreditar que naquele universo houvesse um registro confiável. Tive então que recorrer à memória dos empregados mais antigos para descobrir os pontos mais críticos.

Independentemente destes números, duas fontes eram evidentes que precisavam ser trabalhadas, a poeira dos britadores e o ruído das máquinas. Sendo assim, as coloquei como prioritárias.

Comecei a passar tardes inteiras no britador para conhecer o processo e buscar soluções, saía de lá até escura de tanta poeira de basalto e não me conformava que aqueles operadores, que já considerava amigos e admirava seus esforços, estavam ali havia quase trinta anos respirando todo aquele pó. Mas esta será uma nova história!

Autora: Bernadeth Macedo Vieira



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