Como são diagnosticadas e tratadas lesões e doenças no trabalho


O corpo humano tem uma incrível capacidade de regenerar os tecidos lesionados por movimentos e esforços excessivos, mas precisa de um tempo para isso. Se as atividades que geraram o problema continuarem sendo repetidas, a lesão progride, e a dor torna-se cada vez mais constante.

São as tendinites, tenossinovites, bursites, síndrome do túnel do carpo e várias outras doenças agrupadas sob a denominação distúrbios osteomusculares relacionados ao trabalho (DORT).

Anteriormente denominadas lesões por esforços repetitivos (LER), essas doenças vêm crescendo em todo o mundo e são uma das principais causas de afastamento do trabalho. Mas as atividades profissionais não são as únicas vilãs. Esforços excessivos e repetitivos nos esportes, em tarefas domésticas e até nas horas de lazer na frente do computador ou do videogame podem favorecer o surgimento dessas enfermidades.

Segundo a Dra. Alessandra Passos, fisiatra do Einstein, nos anos 70 essas doenças eram vistas principalmente como males relacionados a esforços repetitivos no trabalho e numa perspectiva mais física. "Atualmente, o entendimento é mais amplo. Não se limita ao aspecto físico ou biomecânico. Abrange outras dimensões, inclusive a emocional ou psicológica", afirma a médica.

Hoje as pessoas estão expostas a um ambiente profissional mais estressante, caracterizado pelas pressões de produtividade, competitividade e prazos; são mais sedentárias que as gerações passadas, em função das facilidades e tecnologias da vida moderna, e acabam expondo o organismo além dos limites que ele tem capacidade de suportar. "Mas duas pessoas que exercem a mesma atividade, trabalhando o mesmo número de horas, irão reagir de maneira diferente, em função de um conjunto de fatores - das características físicas e genéticas às posturas que adotam na execução da atividade ou à forma de lidar com as pressões", afirma a fisiatra. "É preciso, portanto, considerar todo o conjunto de elementos relacionado a cada indivíduo. É importante tratar a consequência, mas é necessário tratar também a causa", completa a Dra. Alessandra.

Diagnóstico

Em geral, o diagnóstico é feito na consulta médica, a partir do exame clínico, dos sintomas descritos pelo paciente e do relato de suas atividades e hábitos que possam ter originado o problema ou que podem agravá-lo. O questionamento é exaustivo e abrangente: o que acontece em casa e no trabalho, atividades que exigem esforços excessivos ou repetitivos, qual tempo dedicado a elas, como e quanto a pessoa dirige, se fica sentado, qual altura da cadeira; modelo e peso da bolsa ou mochila que usa habitualmente; como dorme, tipo de colchão e travesseiro; altura do monitor do computador, tipo de mouse, etc. Em alguns casos, o médico poderá solicitar exames complementares, como ultrassonografia, ressonância magnética e eletroneuromiografia.

De acordo com o Dr. Mário Guarnieri, ortopedista e especialista em cirurgia das mãos, as LER são, normalmente, lesões pouco graves. "Geralmente, o que falta é repouso adequado ou irrigação sanguínea para que o tecido possa cicatrizar", afirma ele. "Quando um atleta profissional rompe um tendão, ele é colocado em repouso para que o corpo possa fazer a reparação dos tecidos. Mas uma pessoa que trabalha nem sempre consegue parar. Acaba mantendo o esforço e não dá tempo de cicatrização para o organismo, fazendo com que a lesão progrida".

Por isso, segundo o médico, é importante a conscientização do paciente, dedicando tempo para explicar a ele qual é o seu problema, como o mal poderá evoluir e como ele próprio pode ajudar na recuperação. "É mais fácil obter a adesão do paciente ao tratamento se ele entende o que está acontecendo e o que pode ou não pode fazer para ajudar", afirma o Dr. Mário. "Se eu não explicar à pessoa que estou imobilizando seu braço para favorecer o descanso da musculatura daquela região e agilizar a recuperação dos tecidos afetados, ela vai fazer força dentro do gesso, e o procedimento será inútil", exemplifica ele.

Tratamento

Os tratamentos variam segundo cada caso e tipo de doença. Idealmente a abordagem deve incluir o apoio de uma equipe multiprofissional - ortopedista, fisiatra, fisioterapeuta, psicólogo, nutricionista e acupunturista, entre outros -, contemplando, além da dimensão física, os aspectos psicológicos, estilo de vida, etc.

Novos recursos, como a toxina botulínica, vêm se somando ao arsenal de tratamentos. Semelhante à aplicação estética contra rugas, a toxina paralisa por um período as contrações do músculo, que ganha um tempo de repouso para se restabelecer. Já o tratamento por ondas de choque (o mesmo equipamento usado para bombear pedras no rim) pode ser utilizado em casos mais específicos e vem sendo adotado em tendinites calcárias (acúmulo de cálcio nos tendões).

Entenda a diferença entre tendinite e bursite

Essa terapia gera um aumento local de vasos (neoangiogênese) e de substâncias que são potencialmente vasodilatadoras. "O objetivo é aumentar a irrigação sanguínea, o que ajuda na cicatrização da lesão", explica o Dr. Mário. Outro recurso - este ainda sem comprovação científica e, por isso, foco de algumas controvérsias na comunidade médica - é o plasma rico em plaquetas (PRP). Obtido do sangue do próprio paciente, o concentrado de plaquetas é aplicado na área afetada, também com o objetivo de ativar o processo de cicatrização.

Tradicionais ou modernos, é vasto o leque de tratamentos. Mas melhor mesmo é prevenir as LER/DORT. As recomendações básicas são: atenção para adotar as posturas adequadas; cuidados com a ergonomia (mobiliário adequado, disposição e altura dos equipamentos, como a tela do computador, posicionamento do teclado e do mouse, apoio para os pés); alongamento e fortalecimento dos músculos mais exigidos; intercalar tarefas (entremear, por exemplo, o trabalho no computador com ligações telefônicas; ou a atividade de passar roupa com a de arrumar a louça); e fazer pausas regulares durante as atividades repetitivas.

Fonte: Hospital Albert Einstein



 

 


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